ALCATRUZES

foi fotografado em Maio e Junho de 2017, ao longo de vários dias, na Nova Olaria de Estoi, actualmente propriedade do mestre Armando Anica Martins. Mas já foi do seu pai e antes do seu avô, oleiro com raízes louletanas e conhecido como 'Ti Zé Sete Línguas'...

A série foi também fotografada durante a entrega de uma 'carrada' de alcatruzes (cerca de 850) em Isla Cristina, uma das localidades espanholas onde mestre Armando tem numerosos clientes. 

A Nova Olaria de Estoi é a última (ou seja, a única) olaria do país a fabricar alcatruzes de barro e continua a seguir os métodos artesanais tradicionais. Os alcatruzes de barro cozido, que são um elemento fundamental de uma das artes utilizadas para a pesca do polvo, foram já, na sua quase totalidade, substituídos por alcatruzes de plástico, produzidos na região centro do país, e também por covos. A manufactura aqui documentada tem como destino principal a Andaluzia, onde está proibida a utilização de alcatruzes de plástico e continuam a ser utilizados os de barro, sejam artesanais ou industriais. Só muito esporadicamente alguns alcatruzes fabricados por mestre Armando são vendidos no Algarve, na zona de Sagres.

 

O processo produtivo é simples de descrever. As argilas de tonalidades verdes e avermelhadas são recolhidas em barreiros algarvios e transportadas em bruto para a olaria. Aí são trituradas, misturadas e transformadas em pó. A argila é, em seguida, misturada com água e amassada à mão, e passa a chamar-se barro. Este é prensado e, à saída da máquina, ganha a forma de longos 'chouriços', que são depois cortados e ficam, então, empilhados ao pé da roda-de-oleiro. Cada alcatruz é, finalmente, moldado à mão pelo mestre oleiro.

Mas o começo, em Portugal, da utilização generalizada de covos, a par no início da fabricação industrial de alcatruzes de plástico e da fabricação industrial de alcatruzes de barro em Espanha, ditou o fim anunciado (ou consumado) das olarias portuguesas que se dedicavam à produção artesanal de alcatruzes. Os preços dos alcatruzes industriais são três vezes mais baixos do que os artesanais e os fabricantes destes últimos foram forçados a abdicar da quase totalidade das suas margens de lucro para sobreviverem. Na verdade, os pescadores afirmam que os de barro feitos à mão são melhores, por serem mais ásperos e o polvo agarra-se melhor. Mas, como sempre, money talks e o plástico, desde que possa ser legalmente utilizado, é mais resistente e durável...

Os covos (armadilhas ou gaiolas em rede plástica e arame) são artes de pesca com significativos impactes quer na vida animal marinha, quer na poluição por plásticos dos fundos da plataforma litoral. Os alcatruzes de plástico contribuem também para o lixo que aumenta de dia-para-dia no mar, e que cada vez mais preocupa ecologistas, biólogos marinhos e especialistas em gestão de recursos para a pesca. Seria, por isso, desejável que a legislação fosse ajustada à nova realidade e que a vigilância aumentasse, tendo em vista conseguir-se um melhor ambiente e a sustentabilidade dos recursos naturais!

Mestre Armando Martins fabrica semanalmente cerca de um milhar de alcatruzes, trabalhando sozinho ou com a ajuda de outro homem. E aos sábados de madrugada 'agarra' na sua Dyna, atravessa a fronteira e viaja até Ayamonte, Isla Cristina ou mesmo Lepe para fazer a entrega da sua produção semanal...

... e mesmo com uma vida que não é fácil, nem no trabalho físico nem nas contas ao fim do mês, é uma pessoa orgulhosa da sua profissão: 'A mim, a pior coisa que me podem perguntar é se quero começar a fazer alcatruzes para pôr flores. Os alcatruzes sempre foram para os polvos e não é comigo que vão mudar!'

Para levar a cabo esta série fotográfica foi utilizada uma câmara FUJIFILM X-T2 e as objectivas Fujinon 16mm F1.4 R WR, 23mm F2.0 R WR, 35mm F2.0 R WR e 56mm F1.2 R APD. Foi somente utilizada a iluminação ambiente dos diversos espaços onde as fotografias foram feitas. Para a pós-edição das imagens recorreu-se aos Profiles ACROS (b&w), Camera Pro Neg. Hi e Classic Chrome (cores) da Fujifilm e a alguns ajustamentos adicionais executados com Adobe Lightroom CC.

 

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Ribeiro, M. 1970. Recolecção do Polvo na Costa Algarvia.

Edição da autora, Lisboa.