Tim Motion - ALGARVE 63
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Os anos em que Tim Motion viveu no Algarve, na vila piscatória de Carvoeiro, foram, certamente, os anos em que descobriu a fotografia. Começou com uma máquina simples, uma Ricoh Auto 35, que utilizava para fazer rápidos apontamentos de paisagem. Pouco depois, inspirado pelo mestre Henri Cartier-Bresson, passou para uma Leica IIIc fabricada em 1952. Nessa época era ainda um fotógrafo amador, fascinado pela dimensão social e antropológica da imagem, tendo os algarvios como os seus protagonistas preferidos.
Um olhar perspicaz e a capacidade de se integrar entre as gentes da região permitiram-lhe construir, ao longo desses anos, um valioso corpo de trabalho fotográfico. A sua cultura europeia terá também contribuído para essa forma peculiar de olhar e interpretar a realidade algarvia. Dominava a luz e os enquadramentos e, sobretudo, soube aproximar-se das pessoas sem perturbar a espontaneidade dos momentos que registava, preservando nas suas imagens a naturalidade dos gestos, das expressões e, muitas vezes, o sorriso dos retratados.
ALGARVE 63, livro e exposição dos Encontros de Fotografia de Lagoa 2017, são uma consequência desse corpo de trabalho, mas também de um feliz encontro, no início de 2015, e da escolha de um curador de fotografia genuinamente algarvio. Ao corpo de trabalho realizado nos anos 1960 vieram juntar-se imagens feitas depois de Abril de 1974. Dessa inesperada sinergia surgiu também um Algarve estremunhado, a tentar acordar, compreender e adaptar-se a uma nova realidade, onde a emergência do turismo se cruzava com a abrupta chegada da revolucionária liberdade.
Quando, em 1975, abandonou o Algarve, Tim Motion regressou a Londres. Em Portugal deixou ficar a fotografia enquanto prática amadora e no Reino Unido iniciou uma nova etapa da sua vida, tornando-se fotógrafo profissional. O jazz e as imagens aéreas, entre outros temas, começaram a preencher grande parte da sua actividade empresarial. O Algarve conquistou, e assim ficará para sempre, um estatuto singular na obra do fotógrafo irlandês.
Foi um tempo de descoberta. Para nós, que hoje encontramos estas fotografias, continua a sê-lo: através do olhar verdadeiramente singular de Tim Motion descobrimos uma região e as suas gentes, em momentos irrepetíveis da história.
Nuno de Santos Loureiro
Tavira, Agosto de 2026
TIM MOTION - BIOGRAFIA
Tim Motion (Timothy James Glascott Motion) nasceu em County Limerick, Irlanda, no dia 28 de Junho de 1936. Passou grande parte da juventude na Inglaterra, para onde se mudou aos 2 anos de idade com os seus pais. Depois de concluir os estudos ingressou na Royal Navy , onde serviu durante dois anos no Mediterrâneo, a bordo de um porta-aviões. Terminada essa etapa da vida, dedicou-se à pintura e começou a passar férias no Algarve.
Em 1961, “por acaso e destino”, expressão do agrado de Tim Motion, descobriu a vila piscatória de Carvoeiro, no concelho de Lagoa, onde viria a viver entre 1962 e 1975.
Foi também na década de 1960 que começou a fotografar. A vida algarvia tornou-se objecto de atenção prolongada, o que lhe permitiu contribuir com 14 imagens para o livro Algarve: a portrait and a guide (David Wright & Patrick Swift, Barrie & Rockliff, Londres, 1.ª edição, 1965; 2.ª edição, 1971). Para a mesma obra escreveu também o Appendix 3 – Bom Vinho do Algarve. Em 1967 abriu o Sobe e Desce, um dos night-clubs de referência do Barlavento algarvio e começou a fotografar menos, por falta de tempo livre. Regressou posteriormente a Londres, mas nunca perdeu a ligação ao Algarve, que continuou a visitar regularmente. Em 1978 e 1979 voltou a fotografar na região, então para a revista Algarve Life. O n.º 2, de Novembro de 1978, publicou “Algarve People, seen by the famous photographer Tim Motion”, enquanto o n.º 3, de Março de 1979, incluiu “Manuel Guerreiro (Manolo) a jazz man of Algarve”. Em 2007, apresentou na Galeria de Arte Algarvida, na Rua do Barranco, Carvoeiro, algumas das fotografias que tinha realizado em 1963.
A partir de Londres desenvolveu uma carreira profissional especializada em fotografia aérea, realizada a partir de helicópteros, pequenas aeronaves e balões de ar quente. Fotografou para o livro Tunisie... La magie du Sud (Abderrazak ben Ammar, Simpact Editions, Tunis, 1996). Fotografou igualmente inúmeros espectáculos e músicos de jazz e blues, actividade que iniciou em 1971 no primeiro Cascais Jazz Festival. Luís Villas Boas, director do festival e amigo de Tim Motion, assegurou um photo pass card que lhe permitiu registar imagens de Miles Davis, entre outros músicos presentes. Parte desse trabalho foi reunida no livro Jazz Portraits, an eye for the sound – images of jazz and jazz musicians (Smithmark Publishers Inc., Nova Iorque, 1995).
Em 2015, novamente “por acaso e destino”, cruzou-se nas redes sociais com Nuno de Santos Loureiro, então director dos Encontros de Fotografia de Lagoa. Dessa troca de mensagens nasceu o livro ALGARVE 63 (Município de Lagoa & Universidade do Algarve, 2017), apresentado a 14 de Julho de 2017 em simultâneo com uma exposição de fotografias suas no Parque Municipal do Sítio das Fontes, em Estômbar. No início de 2018 a mesma exposição foi apresentada na Biblioteca da Universidade do Algarve, Campus de Gambelas, Faro, e em Set. / Out. de 2026 em Lisboa, no Pavilhão J da Galeria da Mitra, por iniciativa da Associação CC11.
Tim Motion faleceu em Londres a 2 de Abril de 2026.
