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LADRILHO DE SANTA CATARINA

foi fotografado ao longo de vários dias, em Abril e Maio de 2017, na fábrica de cerâmica de Fernando Silvério Faustino, localizada nas proximidades de Julião - Fonte do Bispo, concelho de Tavira.

Esta série procura documentar toda a sequência da manufactura de ladrilhos e tijolos, levada a cabo segundo métodos tradicionais e com recurso intensivo a mão-de-obra e matérias-primas locais. Cada ciclo de produção demora, em geral, duas semanas. Tem início com a trituração e amassamento do barro, operações que são já feitas com maquinaria moderna, e depois com a moldagem manual, unidade a unidade, dos ladrilhos e tijolos. Para que as dimensões das peças não vão variando entre si utilizam-se as 'gavieiras', tradicionalmente de madeira e hoje em metal. Os ladrilhos e tijolos, em seguida, secam geometricamente espalhados pelo chão bem nivelado das 'eiras de secagem' do 'telheiro', durante um número de dias que depende das condições meteorológicas. Periodicamente são vistoriados e, se necessário, batidos com uma 'plana' de madeira para reduzir os pequenos empenos que possam surgir durante a secagem. Quando secos, são enfornados à força de braços, tarefa que se prolonga por dois ou três dias e exige bastante experiência e mestria, para que a sobreposição das peças assegure a circulação homogénea do calor, desde a base até ao topo do forno. Todas as peças são arrumadas por 'adagues' (camadas) e em 'pentes' (organização das peças em cada 'adague'); os tijolos, por hábito, ficam nos 'adagues' de baixo, por serem mais volumosos e robustos, e em cima deles vão sendo empilhados os 'adagues' de ladrilhos. Ao mesmo tempo é indispensável garantir que as quebras nas peças, resultantes do peso das camadas superiores e do aquecimento até aos 900ºC, sejam muito limitadas ou mesmo nulas. Por isso, toda a enforna é sempre orientada pelo 'mestre-do-telheiro', estatuto só conseguido após longos e bem sucedidos anos de dedicação aos trabalhos mais exigentes e de maior responsabilidade. Os combustíveis utilizados são também de origem local: casca de amêndoa, bagaço de azeitona, esteva, serradura e outros desperdícios de madeira. A cozedura demora cerca de 36 horas e os operários, em turnos, vão alimentando o forno com bastante regularidade. Após esfriarem, ladrilhos e tijolos são desenfornados à mão, escolhidos um a um para certificar a qualidade do lote, empilhados em paletes e vendidos para, predominantemente, virem a ser aplicados na região. No entanto, a verdade é que a sua aplicação em outras regiões do país, e até mesmo no estrangeiro, é crescente. Arquitectos de enorme prestígio internacional, como Eduardo Souto Moura e Manuel Aires Mateus, já conhecem bem a identidade exclusiva e as qualidades estéticas, térmicas e acústicas destes materiais, e utilizam-nos com alguma frequência nos seus projectos.

 

O mais vernáculo ladrilho de Santa Catarina mede 15 x 30 cm (15 x 30 x 3 cm, segundo a obra de referência do início da década de 1960 "Arquitectura Popular em Portugal") e tem a particularidade de apresentar, sempre no sentido do comprimento, um suave riscado largo e quase branco sobre a base avermelhada, que é feito pelo operário que auxilia na moldagem e faz o acabamento das peças ao passar sobre elas os dedos molhados em cré, uma argila fina, de cor clara, diluída em água. Mas para além desse formato existem outros, como os quadrados de 20 x 20 cm, a que se juntam peças para rodapés e para elementos decorativos, por vezes, absolutamente únicos.

Tendo em vista minimizar o custo e esforço de transporte do barro para as fábricas, as mesmas localizam-se criteriosamente sobre o estreito filão de onde são extraídas as matérias-primas fundamentais, ou seja, as argilas vermelhas que integram o Complexo Vulcano-Sedimentar. Trata-se da faixa de contacto entre o Algarve Paleozóico e o Mesozóico que atravessa a região de lés-a-lés, desde as proximidades de Vila do Bispo até às de Castro Marim, e que é muito perceptível pelas diferenças evidentes entre as rochas e os solos que surgem à superfície, para Norte e para Sul.

A pequena dimensão de cada fábrica, a escassa divulgação do Ladrilho Tradicional de Santa Catarina da Fonte do Bispo nas feiras de materiais de construção e nos ateliers de arquitectura, o preço unitário das peças somado aos elevados custos de transporte, em consequência do peso considerável dos ladrilhos, tijolos e telhas, são constrangimentos sérios a esta actividade industrial de cariz artesanal. Mas, mesmo assim, trata-se de um sector com vitalidade e que tem resistido satisfatoriamente aos 'altos e baixos' periódicos da construção civil algarvia. Apenas a telha regional ou 'mourisca', ou Telha de Santa Catarina, já quase deixou de ser fabricada por falta de compradores. E, curiosamente, o nome tradicional destas fábricas era 'telheiros'...

A profunda crise que teve início em 2008/09 e levou à estagnação de quase todo o sector da construção civil fez com que tivessem 'fechado portas' algumas fábricas de cerâmica de ladrilho de St.ª Catarina, com particular incidência para aquelas que recorriam a instalações arrendadas e não eram exploradas directamente pelos seus proprietários. Actualmente, as que persistiram (Alberto Rocha e Lúcio Brás Viegas, nas proximidades de Santa Catarina da Fonte do Bispo, Fernando Silvério Faustino e Vidal Brito, em Julião - Fonte do Bispo) estão a viver 'melhores tempos'. As encomendas têm vindo a aumentar bastante e, para além disso, a concorrência é agora menor. No entanto, o sector não apresenta ainda sinais de revitalização consolidada, já que não se antevê para breve o aumento das unidades de produção. Apenas quatro fábricas de cerâmica 'atravessaram todo o deserto' e ninguém arrisca que esse diminuto número venha a crescer a curto prazo!

Os primórdios dos 'telheiros' estão profundamente perdidos nos séculos de história do Algarve. Mas é certo que até a um passado recente, provavelmente até à década de 1960, era uma actividade apenas levada a cabo entre os meses de Maio e Setembro, integralmente ao ar livre e com fornos bastante rudimentares. E estava muito mais dispersa por todo o Barrocal, o que actualmente já não acontece. No início dos anos de 1960, provavelmente com o aumento da procura, os 'telheiros' começaram a ser cobertos, melhoraram os fornos e começaram a laborar durante quase todo o ano. Surgiram assim as fábricas de cerâmica, muito semelhantes às actuais, e que deverão ter tido um dos momentos de apogeu nos anos da viragem do século. Tal aumento da procura deverá ter, em grande medida, resultado da crescente valorização de elementos vernáculos e tradicionais da arquitectura regional popular, proporcionada pelo turismo nacional e estrangeiro que começava a chegar à região e procurava utilizar elementos da identidade algarvia nas novas construções. Foi um processo lento, mas que foi ganhando 'fôlego' e hoje é por demais evidente...

No Algarve, tradicionalmente, o ladrilho regional era utilizado não só nos pavimentos interiores das casas de habitação mas igualmente em pátios exteriores, bancos, capeamento de muros, etc. Era também utilizado na própria construção de diversos tipos de cobertura a par do tijolo maciço, como era o caso da construção das abóbadas. Por outro lado era fundamental para cobrir exteriormente terraços ou açoteias, mirantes e pavimentos elevados. Essas abóbadas eram e são, aliás, o suporte de muitos terraços ou açoteias. Em alternativa usavam-se outras soluções construtivas, como a dos ‘dormentes’, estruturas de vigamento em madeira compostas por vigas e vigotas; sobre essas últimas era assente com argamassa o ladrilho regional. E por último, mas só muito esporadicamente, o ladrilho regional era ainda utilizado para grelhagem, sobretudo nas guardas de terraços.

O Algarve e, em destaque, a freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo, no concelho de Tavira.

A vermelho o Complexo Vulcano-Sedimentar e as argilas vermelhas.

Os círculos verdes representam as fábricas de cerâmica onde se produz (ou produziu, no caso das fábricas presentemente encerradas) o Ladrilho Tradicional de Santa Catarina da Fonte do Bispo.

 

Agradecimentos:

A Fernando Silvério Faustino e aos trabalhadores da sua fábrica de cerâmica, mestre-de-telheiro José Florêncio Lopes, Eduardo Fernandes, João Cavaco e Sérgio Pereira pela inesgotável paciência 'fotogénica'.

Para levar a cabo esta série fotográfica foi utilizada uma câmara FUJIFILM X-T2 e as objectivas Fujinon 16mm F1.4 R WR, 23mm F2.0 R WR, 56mm F1.2 R APD e 90mm F2.0 R LM WR. Foi somente utilizada a iluminação ambiente dos diversos espaços onde as fotografias foram feitas. Para a pós-edição das imagens recorreu-se aos Profiles ACROS (b&w) e Classic Chrome (cores) da Fujifilm e a alguns ajustamentos adicionais executados com Adobe Lightroom CC.

Ler mais:

Anica, Arnaldo Casimiro. 2005. Monografia da Freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo. Junta de Freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo, Tavira.

Santos, Marta. 2008. Telheiros. In: Materiais, sistemas e técnicas de construção tradicional. GTAA Sotavento. Contributo para o estudo da arquitectura vernácula da região oriental da serra do Caldeirão. Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve & Edições Afrontamento.

Série publicada na FUJI X PASSION # 12 June 2017

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Timeless terracotta

Essential Algarve #104 - August-September 2017

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Algarve Resident - August 17, 2017 - pages 28 and 29

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BARLAVENTO

24 de Agosto de 2017 - destaque nas págs 12 e 13

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