O ano de 2011 marca o fim de uma época de pesca abundante na região. A partir de então, excepção feita para o ano de 2013, as quantidades de sardinha capturada têm sido significativamente inferiores...

MAR ADENTRO à pesca de esperança.

Bruno Filipe Pires

vivalgarve 73 (Abril 2006) :::: ler AQUI

UMA NOITE À PROCURA DE SARDINHA

Isabel Leiria e José Carlos Carvalho

EXPRESSO (12 Agosto 2017) :::: ler AQUI

UMA NOITE A BORDO DA TRAINEIRA 'ARRIFANA'

em 15 fotografias de Filipe da Palma 

THE SARDINE PHOTO EXPERIENCE

Franqueada a porta da casa do leme, à direita uma tangível imagem de Nossa Senhora de Fátima. No interior, ocupando cerca de metade do espaço da parede frontal, ao lado da roda do leme, imensos écrans, cada qual com sua função. A visão romântica de uma pesca efetuada por instinto e por leitura de sinais terrenos e marítimos, que não permeados por tecnologia, ficou confirmada pela sua negação.

 

Em 22 metros de traineira corpos de homens dos 20 e muitos aos mais de 60 anos sabem com a precisão de um relógio o que é necessário fazer para que a 'Arrifana' abandone o iluminado porto de Portimão, sulcando a partir de agora o negrume da cálida noite.
 

Passam as horas devagar, repousa a maioria dos pescadores, aproveita-se para confirmar in situ, através de sonar, o leito que uns afirmavam rochoso e que o não é, permitindo no futuro e em necessidade lançar rede. Entre o barulho dos motores que se escapa do inferior cavername e da restante maquinaria tecnológica que apetrecha a casa do leme, a comunicação entre Mestre e Contramestre faz-se de modo quase imperceptível, no que a mim me parecem sussurros. Mas 16 anos de relação profissional para além de familiar, em tão exíguo espaço, contribuem para que a linguagem seja compreensível e despojada de desnecessários artifícios.
 

Uma vez registados os sons que nos acompanharão ao longo de quase 12 horas, habitua-se o corpo. Às primeiras horas de um novo dia, ainda noite, adormeço no beliche onde me encontrava sentado com os olhos a navegarem por entre leituras e cromatismos vários. Acordo ainda noite mas não faltando muito para o raiar do sol. Já havíamos percorrido largas milhas de um mar manso, e Sagres e outro mar estavam ali ao dobrar do Cabo. Porém voltamos para trás numa viagem que em demasia se tinha estendido.
 

Com o rosto já bem iluminado adormeço uma outra vez, tendo acordado pouco depois com o esperançoso silvo da sirene que pela sua presença colocou de uma só vez todos os homens no convés. É largada a umbilical lancha e um círculo inicia-se na água, corpos afadigam-se nas tarefas do cerco que se fecha. Máquinas e homens em perfeita simbiose fecham e recolhem uma gigantesca rede, não existindo quase necessidade de palavras de ordem, pois todos consciente e empiricamente
sabem o que fazer e, acima de tudo, o que não fazer. Gaivotas aproximam-se, curiosamente sobrevoando o círculo que lenta e paulatinamente se estreita.

 

Não há motivos para sorrir pois que, para além do imenso trabalho que há por fazer, a sardinha que é pouca encontra-se misturada com cavala cujo preço em nada compensa a sua pesca. Com o sol já bem alto, com o peixe escolhido à mão, entramos pela barra em direção ao porto de onde havíamos zarpado cerca de 12 horas antes. Adivinhava-se uma Praia da Rocha cheia, em pleno e farto mês de Agosto, mas o fruto do trabalho muito longe ficará para responder, sequer, aos gastos de combustível...

Filipe da Palma