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  • Nuno de Santos Loureiro

Ex-Presidente da República escreveu sobre a Feira anual de Portimão


Feira anual em Portimão (em finais do séc. XIX)

Fiz quanto pude para os auxiliar, instando especialmente por que ficassem em Portimão até Novembro, para armarem barraca na feira que lhes descrevia qual outra rival de Nijnii-Novgorod... Era sincero, e ainda hoje, quando me reporto às impressões da infância, não recordo feira que a supere ou iguale.

A título de curiosidade, vamos lá ver que imagens me ficaram de então. Não é mau, de quando em quando, reviver essas ilusões; são amores primitivos cuja lembrança reconforta.

(...)

¡Como parecia aumentar a extensão do cais logo que a feira lá assentava! Tornava-se de uma vastidão sem fim. Começava pela barulhenta rua dos sapateiros (cheia de penduricalhos, tresandando a cortidura) que eu mal percebia que coubesse ali; depois a rua igualmente longa dos paneiros, porém, mais repousada, quási silenciosa, embora fôsse raro o momento em que êles não trabalhassem, medindo às varas os sorianos apetecidos pelos lapuzes friorentos; depois a rua dos tendeiros, exposição das maravilhas que as crianças ambicionam para os seus paraísos domésticos: pelas multicores; tirsos cobertos de guizos; arlequins abrindo os braços do alto das tribunas que lhes proporcionam os gargalos das garrafas; animais de tôda a casta, e as gaitinhas de tôda a espécie e feitios, com os berimbaus, os tambores, as trompas; e para remate, as harmónicas inacessíveis, regalos... de príncipes reais. Quási isolada, mais larga e decorativa, embora mais curta, a rua com as barracas de arreios: a alegria andaluza dos cabrestões recamados de rosas, as retrancas franjadas, as rédeas de polimenta.

No coração da feira os aristocráticos ouvires, com a densa e variada multidão da freguesia que lhes perscruta os escaparates: damas elegantes e desdenhosas; casais de namorados devaneando sôbre a posse daqueles tesouros; campónias poupadas que forraram o dinheiro para comprar um par de brincos, ou um cordão, e andam com a família tôda (e o noivo) horas sucessivas a examinar, a ajustar...

Por fim, formando bairro à parte, as barracas de “comes e bebes” com toques de guitarra e figurões congestionados que deitam a cabeça de fora para vomitar vinho tinto...

Depois, ao ar livre (¡como chega o espaço para tanta coisa!) a obra de castanho, feita em Monchique: mesas, cadeiras e arcas; os montes de frutas, os peros rescendentes, o cascalho de nozes, as pirâmides de romãs; e as louças de barro, de faïança, estendidas sôbre junco, luzindo ao sol a peculiar garridice dos seus esmaltes vidrados.

Formando também bairro distinto as barracas de bazares ou leilões, dos títeres, e aquela infalível - temerosa - das feras, que se por acaso se soltassem (pobres feras!) devoravam tudo, com constante e enorme concorrência de labregos pasmados e de embarcadiços de mãos dadas e andar balouçado.

¿E as surprêsas e transes da corredoira, para quem se propõe escolher um burro sólido e veloz, que mate de inveja os companheiros de escola?

Mas excedendo tudo a feira de gado, com essa raça de bois vermelhos que no Algarve apuraram até à perfeição extreme, e não tem rival no mundo. A última visão que dela me ficou, quando a deixei, dá-me ainda hoje um marujo da armada puxado por um bezerro renitente, enleado no seu uniforme, não porque lhe tolhesse os movimentos mas - dizia-me êle depois - por sentir a extravagância de aparecer ali assim vestido, levando pelo baraço um bezerro assustadiço, e ainda em cima o guarda-sol azul e colossal aberto, para abrigar a numerosa família que o acompanhava. Era um tremendo garotão filho de uma comadre dos Montes de Alvor, viúva, que tinha uma horta e moirejava com(o) um homem. O bezerro, da sua criação, foi a peça mais linda que se apresentou na feira: rendeu nove moedas.

E por todos os lados o povo, a agitação, o bulício, a poeira, o barulho, são tais que as mãis estonteadas, cegas, esquecem os filhos que se perdem e desaparecem roubados pelos ciganos, diz a lenda que cito para pôr à relação de tantos assombros... pueris.

“Dar as feiras” constitue no Algarve uma espécie de obrigação, a que ninguém que se preze pode fugir: é mais restricta do que a própria consoada das endoenças. As crianças andam constantemente à busca dos padrinhos e dos parentes e amigos dos pais para lhes pedirem as feiras, não faltando todavia quem as recuse, sobretudo aos filhos dos ricos que não sabem fazer selecção de avaros e pródigos. Não sucede o mesmo com os pobres, que nunca se enganam...

In:

Manuel Teixeira-Gomes, 1939.

Carnaval Literário. Figuras e quadros de pouca monta - IV

Seara Nova, Lisboa. págs. 87 a 92

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