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Fotografia portuguesa 2018: três livros indispensáveis e uma colecção de referência!


A fotografia portuguesa está viva, bem viva. É apenas necessário vê-la, observá-la, reconhecê-la, valorizá-la!

Os livros de fotografia, para além das exposições e de outras formas de fazer chegar até ao público o trabalho dos autores fotógrafos, são fundamentais na afirmação da fotografia contemporânea. Em Portugal, em 2018, foi editado um apreciável número de títulos novos, através de respeitáveis editoras e também de valorosas edições de autor.

RETRATOS 1970-2018, de Alfredo Cunha, é um livro indispensável. Editado em Outubro pela Tinta-da-China e impresso na Norprint - a casa do livro, tem um elucidativo texto introdutório de Ana Sousa Dias e um posfácio de Valter Hugo Mãe. É uma obra de carreira e o fotógrafo nortenho já nos habituou a que, quando publica livros assim, eles são absolutamente indispensáveis porque excelentes. Em cerca de 470 páginas, sempre a preto-e-branco, permanente opção estética e discursiva de Alfredo Cunha, reúnem-se neste volumoso fotolivro retratos de quatrocentas e quarenta pessoas, predominando os portugueses publicamente conhecidos. Retratos que se apresentam ao leitor organizados de forma quase alfabética, de Amélia Rey Colaço (1970) até Zé Pedro (2002). Ana Sousa Dias escreveu que os retratos são uma questão fundamental do trabalho de Alfredo Cunha e Valter Hugo Mãe esclareceu: Acontece poucas vezes sermos fotografados com um efeito interior, uma espécie de intimidade inesperada. Sobretudo quando a pessoa do fotógrafo nos é substancialmente desconhecida e, como tal, entra em nossa casa enquanto visita naturalmente cheia de limites e cordialidades cerimoniosas. Há algo de ladrão num fotógrafo assim, porque ele toma muito mais do que julgamos estar a dar.

Alfredo Cunha é um reconhecido mestre do retrato fotográfico e o retrato é uma disciplinas mais exigentes da Fotografia. RETRATOS 1970-2018 em nenhuma página desaponta, nos seus close-ups intimistas e nos seus planos mais abertos e descontraídos, às vezes até desafiantes. Nos primeiros, Alfredo Cunha parece registar como um fotógrafo que em nada perturba o ser e o estar dos retratados, entregues a si mesmo e quase esquecidos da presença de alguém tão por perto e tão observador. Nos segundos, a interacção entre fotógrafo e fotografado é mais evidente mas os registados não manifestam qualquer desconforto com essa situação ou momento; pelo contrário, frequentemente transparece uma evidente e conivente cumplicidade.

Em 2018 Alfredo Cunha publicou igualmente Uma Noite no Mar, editado pelo Museu Marítimo de Ílhavo e pela Câmara Municipal local, fotolivro que acompanhou a exposição homónima que esteve patente ao público entre 19 de Maio e 30 de Setembro.

46750, de João Pina, é outro livro indispensável. Editado em Maio pela Tinta-da-China e impresso na Gráfica Maiadouro, tem poesia de Viviane Salles. João Pina, que foi fotografado em 2018 por Alfredo Cunha, adoptou como objecto de estudo desta obra invulgar a violência na capital carioca. 46750 é o número de homicídios que ocorreram na região metropolitana do Rio de Janeiro entre 2007 e 2016, explicou no posfácio.

É um livro 'de tirar a respiração', 'horrível', de guerra urbana, pobreza e desnorteio sócio-económico. Um livro 'pesado' e que deprime o leitor. Faz estremecer pelo enfrentamento directo com a morte, choca pelo sofrimento de quem vê os mortos passar. Violência em tempo real, sangue ainda quente, lágrimas por secar. E tudo entra pelos olhos do leitor adentro dada a desconfortável proximidade do autor quando fotografa. Não há uma 'sensata' distância de segurança! A angústia dos vivos vibra e as imagens que não têm violência expressa transmitem o 'vazio' de uma vida vivida dia-a-dia porque o amanhã é imprevisível. João Pina está no local do crime, no momento do crime, e fotografa como um foto-repórter de excelência que regista 'sem qualquer censura' o foco da ocorrência.

O preto e branco contrastado da edição intensifica o dramatismo das imagens e das realidades que descobrem. O desenho gráfico e a paginação, especialmente a das páginas dobradas ao meio e que quando se abrem deixam ver as imagens mais chocantes, são o toque final na intensidade dramática permanente.

Parte das imagens publicadas tinham sido já premiadas em 2017, quando João Pina ganhou o Prémio Estação Imagem desse ano, com Rio de Janeiro - o custo humano dos grandes eventos desportivos. 46750 foi finalista no Lucie Photobook Award (EUA) e no Prémio Internacional FELIFA - Festival de Libros de Fotografía y Afines (Argentina).

Sob o Signo da Lua, de Valter Vinagre, é mais um livro indispensável. Editado em Julho pela Dafne Editora e impresso na Norprint - a casa do livro, tem um texto (bilingue) de António Guerreiro, Iniciação à Festa Pagã, e outro (igualmente bilingue) de Joaquim Moreno, Poliphilo ou o Exercício Experimental da Analogia. O texto de António Guerreiro ajuda a compreender o livro: O fotógrafo entra num território ocupado por uma "tribo", uma comunidade de "selvagens" pacíficos, e imerge numa grande festa colectiva, onde se desloca como quem faz observação etnográfica espontânea, sem propósitos científicos. Sabemos que não faz parte da festa, que a festa não é sua e está ali só para observar, porque as fotos mostram que há uma distância irredutível entre o olho e a objectiva e aquilo que ele vê.

É uma obra de relevação, não só de um evento que periodicamente suscita interrogações, quantas vezes preconceituosas, a muitos portugueses, mas também de renovada revelação de maturidade no trabalho de Valter Vinagre, que surpreende sempre ao abordar sem receio temas sensíveis para a actual sociedade lusa. Recorde-se, por exemplo, Posto de Trabalho, sobre a prostituição de berma de estrada...

Não há, em Sob o Signo da Lua, uma foto que seja que faça supor uma intenção de fotografia voyeurística, antes surge uma imagem documental serena, objectiva e sóbria.


A colecção é a Ph., da responsabilidade da Imprensa Nacional. De acordo com o que se pode ler no site da IM, a Série Ph. é uma coleção bilingue de monografias dedicadas a fotógrafos portugueses contemporâneos que (…) pretendem dar a conhecer a obra dos autores, apresentando os territórios expandidos e múltiplos da Fotografia e são enriquecidas com textos de especialistas. Em 2018 foi editado o segundo título, dedicado a Paulo Nozolino, depois de em Novembro de 2017 ter surgido o primeiro, dedicado a Jorge Molder. Em entrevista ao Público o director editorial da colecção, Cláudio Garrucho, afirmou que o terceiro título surgiria em Novembro passado, mas tal não veio a acontecer...



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BLOG | Nuno de Santos Loureiro