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as dimensões e funções de ‘O Algarve de ARTUR PASTOR’


breve ensaio

Por ser director dos Encontros de Fotografia de Lagoa 2015 e, em simultâneo, director cultural da exposição fotográfica O Algarve de ARTUR PASTOR, têm-me perguntado qual é, verdadeiramente, o ‘público-alvo’ da mesma. Algumas respostas preconcebidas estão, em diversas ocasiões, implícitas ou até mesmo explícitas nessa pergunta, evidenciando-se uma visão quiçá minimalista das distintas e complementares dimensões e funções de uma exposição de fotografia. O Algarve de ARTUR PASTOR é uma mostra bastante completa e diversa: aos 73 espécimes fotográficos, a maioria deles provas de autor e os restantes provas actuais, juntam-se seis painéis com textos do próprio Artur Pastor, quase quatro dezenas de bilhetes-postais ilustrados, vários livros, maquetas de livros, catálogos de exposições e outras publicações menores. Um acervo desta natureza, temporariamente patente ao público em conjunto, não poderia ter apenas uma dimensão e função. Eu identifico quatro dimensões e bastantes mais funções!

1. AUTOR FOTÓGRAFO

A exposição tem uma dimensão evidente e óbvia, percebida logo a partir do seu próprio título: é uma mostra centrada num fotógrafo de referência, o qual, para além de ímpar entre os seus pares em Portugal, dedicou à região algarvia uma atenção muito especial. Há uma coerência natural que ficará desde logo assegurada por se apresentarem trabalhos de uma só pessoa, com uma atitude quase invariável mesmo que se percorram diversas décadas e, consequentemente, olhares fotográficos em mudança e evolução, ao longo do tempo. Desta dimensão resultam duas funções: por um lado, mostrar agora, mesmo que apenas parcialmente, o percurso de trabalho de um autor fotógrafo; por outro, certamente, prestar homenagem a alguém que, fruto de um esforço persistente, deixou um contributo relevante para o Algarve, o país e o mundo.

2. ESTÉTICA FOTOGRÁFICA

Artur Pastor foi um autor cuja prática fotográfica foi sempre planeada, criteriosa e cuidada, em qualquer das formas de expressão estética que explorou. Cultivou a fotografia realista e humanista, a fotografia ‘carregada’ de símbolos e poéticas, a fotografia de paisagem, a de retrato, os registos fotográficos documentais de cariz predominantemente agronómico. Não é acertado afirmar-se que foi único ou incomparável na abordagem e utilização de determinadas linguagens e estéticas fotográficas, mas é por demais evidente que, tendo adoptado tendências de época, as praticou com superior mestria. Consequentemente, pela dimensão da estética fotográfica, a exposição assume uma terceira função: mostrar interessantes exemplos de arte fotográfica, servindo então de objecto de estudo e análise a todos aqueles que queiram olhar para cada fotografia como património de arte visual.

3. IDENTIDADE REGIONAL

Outra dimensão evidente e óbvia, igualmente percebida a partir do título da exposição, é a da identidade do Algarve, centrada na sua história recente, na geografia humana, na economia regional e na antropologia. Do enorme legado do fotógrafo, que percorreu inúmeras vezes todo o continente português, apenas foram seleccionadas imagens da região algarvia, numa sequência muito elementar - as fotografias distribuem-se de acordo com uma ‘viagem’ desde Odeceixe até Vila Real de Santo António - e ilustram paisagens, formas de ocupação do território e utilização dos seus recursos, arquitectura, pessoas, modos de vida, actividades económicas. Os painéis com excertos do livro ALGARVE, Portugal, publicado em 1965 por Artur Pastor, contribuem para contextualizar as imagens. Esta dimensão identitária da exposição proporcionar-lhe-á acrescidas funções adicionais, todas elas com um denominador comum: as imagens, observadas em conjunto ou isoladamente, contribuem para uma mais aprofundada compreensão da identidade regional, esteja ela focada na história recente, na geografia humana, na economia regional ou na antropologia dos algarvios.

Por outro lado, as diversas funções resultantes desta dimensão identitária de O Algarve de ARTUR PASTOR extravasam o domínio da arte fotográfica. Os valores intrínsecos de cada registo fotográfico e os da prática fotográfica do autor deixaram de ser o objecto central de estudo. O conteúdo documental das imagens passa a ser o atractivo da análise, e é principalmente sobre ele que assentarão as múltiplas funções desta dimensão da identidade regional da exposição. Cada imagem são 1000 palavras que ajudam a compreender e interpretar as paisagens, a fisionomia das pessoas, os seus modos de estar e trabalhar, a pesca do atum e a da sardinha, etc...

4. MEMÓRIA SENTIMENTAL

A quarta dimensão, que nunca poderá ser ignorada ou sub-valorizada, é a da exaltação da memória sentimental dos algarvios, e em especial daqueles que estão ou já passaram da ‘meia idade’ e identificam a sua juventude com os cenários e acontecimentos fotograficamente registados e expostos. Ainda me lembro dos tempos em que isto e aquilo eram assim… será a frase que melhor exprime esta dimensão da memória sentimental, benéfica para uma valorização subjectiva da identidade e para a confortável sensação de pertença a um território e à sua cultura, mesmo que a comparação com o presente seja desfavorável a este último. De notar que a dimensão da memória sentimental é muito distinta da da identidade regional, antes referida. Esta (a memória) é subjectiva, aquela (a identidade) é quase objectiva; assim sendo, as duas dimensões são complementares e asseguram numerosas funções diferentes.

Nuno de Santos Loureiro

professor na Universidade do Algarve e director dos Encontros de Fotografia de Lagoa

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