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João Mariano :: Parte 1


João Mariano, nascido em Lisboa (1969 - ) por engano e em Aljezur por razão, é um caso único na edição de livros de fotografia de autor em todo o Algarve: oito livros publicados e, neste momento, mais um em preparação.

Fotografia a preto e branco, directa, verdadeira, sem artefactos. Anos de experiência na linha do velho mestre Robert Capa: Se as tuas imagens não estão suficientemente boas, é porque não estavas próximo o suficiente.

O fotógrafo algarvio, formado na escola do Ar.Co, tem vincada preferência por temáticas centradas no sudoeste alentejano e na costa vicentina, ou seja, onde está o ar que respira e a água que bebe. É também aí que encontra a força das suas imagens.

GUERREIROS DO MAR, publicado em 1998, foi o seu primeiro trabalho de referência e, ainda hoje, um dos melhores livros. Edição luxuosa para fotografias que retratam o trabalho quotidiano dos apanhadores de percebes, ou percebeiros, da Costa Vicentina. Em Guerreiros do Mar, afirmou Roberto Carneiro, “cada fotografia aporta uma emoção, um irreprimível estremecimento interior. (...) O conjunto evoca uma liturgia.” João Mariano fotografou “no limite, onde a terra e o mar se unem de forma conflituosa, parecendo querer reclamar para si a linha que os separa. É aqui que se encontra a linha de batalha dos percebeiros”. Foi aí que o fotógrafo de Aljezur registou a colecção invulgar de imagens que são apresentadas neste livro, organizado como se de um diário fotográfico se tratasse. Curiosa estrutura encontrou João Mariano para contar todas aquelas histórias. Para uns, fica evidente que de rotina se trata, com muito pouco de empolgante aventura. Para outros, afinal todos nós, o diálogo temeroso com o risco transmite-se e transborda a cada momento. E a rematar tudo isto estão aquelas mãos, aqueles bigodes, aquelas boinas. Afinal de contas tudo se passa à porta de casa, entre a Pedra da Atalaia, a da Galé, a do Gigante, os Arrifes do Pontal, o Poio do Canal e, até mesmo, a Pedra Rachada de Vasco Martins. Um espanto!

LUGARES POUCO COMUNS, o segundo livro, foi publicado dois anos depois, em 2000. Se no seu primeiro trabalho João Mariano olhou para os homens, agora quis sublimar a natureza, nas suas diversas escalas e dimensões. É um livro enorme e profundamente telúrico, a olhar para as rochas, de perto, de longe. Brutal!


O mar também lá está, mas o que mais fascina neste levantamento exaustivo de lugares pouco comuns, ou seja, aqueles que, segundo o fotógrafo, “abanam a trivialidade e que por si só, somente pela condicionante de o serem, enaltecem a sua existência”, são as rochas, as texturas, os grafismos, as escritas da criação. O mar, que obviamente é recorrente na costa vicentina, é aqui tão somente um enquadramento, e o homem, que só de longe em longe aparece retratado, resume-se à modesta função de mero elemento de escala. Mas João Mariano quis o seu público ligado à terra. Nada de voos excessivamente altos ou distantes. Por isso, as fotografias são intercaladas com referências geográficas que marcam o itinerário e não aconselham ninguém a esquecer-se que viaja pelos lugares pouco comuns do nosso Portugal meridional.

O livro está esgotado. Esgotadíssimo, à semelhança do que acontece com Guerreiros do Mar. E quem os tem, parece guardá-los bem. Por isso, se um dia se deparar algures com algum destes títulos de João Mariano, é não perder a rara oportunidade!

Seguiu-se então TRABALHO DE FUNDO, datado de 2001. Pode dizer-se ser o terceiro livro de uma trilogia que se concluiu com a sua publicação. É a trilogia que é aqui revisitada…

Trabalho de Fundo foi também o primeiro livro editado pela 1000olhos, a empresa de imagem e comunicação que João Mariano e a mulher, Lenia dos Santos, constituíram em Aljezur. O fotógrafo voltou a centrar-se nos homens e nos seus labores, primeiro para a apanha submarina de algas (Gelidium sesquipedale), depois para a sua secagem, por último para a extracção do ágar. Para tal, mais que tudo, acompanhou dentro e fora de água os apanhadores de algas da Azenha do Mar e da Carrapateira. Não terá sido fácil!

Sob o estrito ponto de vista de um photobook, o resultado é menos cativante, talvez porque trazia aos ombros a responsabilidade de dois antecessores de excelência e, consequentemente, a liberdade criativa de João Mariano estava desde logo comprometida. Em contrapartida, sobressai, em Trabalho de Fundo, o relevante valor documental do conjunto. Uma actividade sazonal que já é residual ou chegou mesmo ao fim, por motivos vários, e cuja memória perdurará por este trabalho do fotógrafo de Aljezur. Meticuloso e rigoroso, como sempre, João Mariano não só fotografou os homens no mar, os moleques nos barcos e as mulheres na faina da seca das algas, como também fotografou, em Coina, Barreiro, a fábrica da Iberagar, onde se extraía o ágar-ágar. Às imagens juntam-se os textos, com particular destaque para os de Dora Jesus e do próprio fotógrafo, que proporcionam melhor compreensão sobre as gentes fotografadas e as suas actividades.

Trabalho de Fundo ainda está disponível. Pode ser adquirido, por exemplo, em www.aljezurswportugal.com.

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BLOG | Nuno de Santos Loureiro