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Coimbra, dois livros e uma Tese


Nas minhas deambulações ocasionais, mas intencionais, pelas feiras algarvias de velharias deparei-me recentemente com dois exemplares de livros editados pelos Encontros de Fotografia de Coimbra, ambos em 1997: Linha de Fronteira e Língua Franca. Os dois estão já esgotados no Catálogo do CAV - Centro de Artes Visuais, o 'herdeiro' dos EFC, e, obviamente, comprei-os.

Mas a mais interessante revelação surgiu depois. Numa pesquisa sobre as numerosas edições coimbrãs dedicadas à fotografia encontrei a Tese de Mestrado em Ciências da Comunicação de Mariana M. B. Gaspar, de Março de 2013, intitulada Retomar Percursos que o Tempo Interrompeu. Uma Leitura dos Encontros de Fotografia de Coimbra. Uma versão digital em formato *.pdf está disponível no RUN, o repositório da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. A leitura é, digo eu, muito recomendável, tanto por mérito próprio como pela escassez de documentação disponível sobre a história da fotografia em Portugal.

O trabalho, redigido num português que deveria ter sido bastante mais cuidado, procura ser um contributo para a história da fotografia em Portugal nas décadas de 1980 e 1990, período coincidente com as diversas edições dos Encontros de Fotografia de Coimbra. A abordagem ao tema é antecedida de 'um breve quadro dos acontecimentos' anteriores a esses anos, no Mundo e particularmente em Portugal, e seguida de uma tentativa de descrição e análise dos EFC e dos seus contributos para o progressivo avançar da fotografia em Portugal. Como escreve a autora, um dos objectos do trabalho foi o 'de compreender até que ponto os Encontros de Fotografia de Coimbra fizeram história e como é que essa história se perde nos meandros insidiosos de um percurso que o tempo interrompeu.' No final, é abordada uma interessante questão: chegaram ao fim os EFC? esgotou-se o 'modelo'? qual poderá ser o futuro?

LINHA DE FRONTEIRA junta fotografias de Cristina Garcia Rodero, Albano Silva Pereira, Inês Gonçalves, Duarte Belo e Nuno Cera a textos bilingues do geógrafo Jorge Gaspar e do historiador Rui Cunha Martins. Foi publicado no âmbito das comemorações dos 700 anos do Tratado de Alcanizes, ou Alcañices, celebrado entre D. Dinis, Rei de Portugal, e Fernando IV, Rei de Leão e Castela, a 12 de Setembro de 1297, com o intuito de estabelecer os limites fronteiriços dos territórios dois reinos e, consequentemente, a paz entre ambos os soberanos. Na verdade, é um livro sobre "espaços raianos. Para lá da fronteira por excelência, a que organiza a diferenciação entre Estados, muitas outras, mais subtis, reproduzem a uma escala menor, marginal mesmo, a vivência do processo." escreveu Cunha Martins na introdução. E os fotógrafos viajam por territórios periféricos, semi-abandonados e/ou esquecidos, de um lado e outro do limite político-administrativo que ao mesmo junta e afasta...

LINGUA FRANCA junta fotografias de Inês Gonçalves (Cabo Verde), José Maçãs de Carvalho e Mariano Piçarra (Guiné-Bissau), José Manuel Rodrigues (São Tomé e Príncipe), Dominique Wade (Angola), António Leitão Marques, Sérgio Santimano e Fazal Sheikh (Moçambique), Bruno Sequeira (Goa, Índia), Mica Costa Grande (Macau), Pedro Vasquez (Rio de Janeiro, Brasil), Evandro Teixeira (Canudos, Brasil) e Steve Cox (Timor-Leste) a um texto de Maria do Carmo Serén, onde se pode ler: "Estes fotógrafos carregam consigo, consciente ou inconscientemente, as contradições que a evolução da história vai tecendo. E é uma coisa que dói devagarinho, mas nada retira ao esplendor destas imagens, à perturbação destes golpes de luz e de humanidade. Esta África um pouco mítica, com o seu quê de memória das Missões, é também uma terra nova a traçar uma história na ironia da sua interpretação e do seu desleixo pela civilização que os oprimiu e os condicionou. E tudo isto está presente nestas fotografias e tudo se explica, tudo se revoga e se recria." Ao texto sucedem-se as imagens, capítulo por capítulo, país por país, fotógrafo por fotógrafo.

Dois livros que são duas publicações com óptima impressão e acabamento, num formato que convida a manusear e manusear sem parar, e que contribuem para fazer da colecção mal conhecida de edições dos EFC uma parcela incontornável da biblioteca dos photobooks portugueses.

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BLOG | Nuno de Santos Loureiro