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  • Nuno de Santos Loureiro

Alfredo Cunha: grande exposição, pequeno livro!


O fotógrafo português Alfredo Cunha (Celorico da Beira, 1953 - ) tem patente uma excelente exposição (grande em tamanho, fantástica em qualidade): Tempo Depois do Tempo e um novo livro: Fátima - Enquanto Houver Portugueses.

A exposição está em Lisboa, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, à Av. da Índia, e pode ser visitada até ao próximo dia 25 de Abril. A entrada custa € 2,00.

É uma exposição retrospectiva, desde o início dos anos de 1970, quando Alfredo Cunha decidiu ser hippie, começou a fotografar e despertou para a realidade social e económica que o envolvia, até à actualidade. São mais de 500 fotografias, sempre a preto e branco, organizadas tanto cronologicamente como por regiões do Mundo. Percorrem o fruto da sua vida de fotojornalista e também da sua intensa actividade actual de fotógrafo. Integradas na exposição, mas com suficiente autonomia, estão uma colecção de retratos de figuras públicas portuguesas e também trabalhos fotográficos levados a cabo em parceria com a AMI. Visitar a exposição é, antes de tudo o mais, reencontrar em imagens décadas de Portugal. O 25 de Abril de 1974, a primeira reportagem fotográfica que deu grande notoriedade pública a Alfredo Cunha, a descolonização, os retornados e o PREC (período revolucionário em curso). O Portugal das décadas iniciais da democracia, sob um olhar fotográfico entre o humanista e o neo-realista, e também os primeiros tempos das independências nos novos países africanos, emergentes da descolonização portuguesa. O vínculo a Moçambique é evidente, quanto mais não fosse porque o fotógrafo acompanhou 'ao vivo e a cores', e registou a B&W, diversos momentos históricos desse país. Depois fluem os registos do Norte do país, desde a ruralidade 'profunda' de Vila Verde até ao Douro 'vinhateiro', sem esquecer o grande Porto cosmopolita e os bairros pobres, o movimento 'punk' e os graffiti, o trabalho fabril e naval. Por fora das fronteiras lusas está representada, por exemplo, a Roménia em 1989 e 1991, o conflito no Iraque em 2003, mais África, o Haiti, a China e, naturalmente, aquela região do Mundo que é agora um dos temas preferidos do fotógrafo português, a Índia.

A exposição não tem catálogo próprio, nem tal se justificava porque o livro A Cortina dos Dias - fotografias de Alfredo Cunha 1970/2012 desempenha quase na perfeição essa função.

Ontem, 1 de Abril, foi dia de duas visitas acompanhadas à exposição, com a presença do próprio Alfredo Cunha, e especialmente dia de apresentação pública do novo livro, Fátima - Enquanto Houver Portugueses. Mas não será fácil ao fotógrafo atingir ou superar o limiar da excelência já alcançado, depois de Cuidado com as Crianças (2003), A Cortina dos Dias (2012), Os Rapazes dos Tanques (2014) e Felicidade (2016). Ao novo livro falta verdadeiramente aquilo que tornou os anteriores obras de incontornável referência na fotografia documental e no fotojornalismo português da actualidade.

um momento da apresentação de Fátima - Enquanto Houver Portugueses, com a presença de António Marujo e Alfredo Cunha

(Fujifilm X-T2 ⦾ Fujinon XF 35mm F/2.0 @ f/2.2 1/100” iso6400)

Fátima - Enquanto Houver Portugueses não surge de uma revisita do fotógrafo aos seus (certamente) riquíssimos arquivos pessoais mas, pelo contrário, sustenta-se em algumas deslocações aos locais próprios do Santuário. E isso faz toda a diferença! Alfredo Cunha habituou-nos a mais e melhor, a uma vivência aprofundada dos espaços e das pessoas que os habitam ou ocupam, a qual se traduz depois em livros, num registo de 'obra de síntese'. Neste mais recente, ontem apresentado, falta a vivência do local em dias que não os de grandes momentos religiosos, e faltam as peregrinações e caminhadas em direcção ao Santuário, parte indissociável do fenómeno antropológico que Fátima é, foi e será. Falta o tempo, 'o tempo depois do tempo', o sábio conselho do tempo que capta e escolhe as melhores imagens, as verdadeiramente singulares, marcantes, as que não saem facilmente da nossa memória. Como resultado final, consequentemente, um livro mais superficial, algo envolvido no turbilhão do centenário das aparições e da visita papal que já se avizinha...

Extensa entrevista a Alfredo Cunha publicada no Observador de 24 de Abril de 2017 AQUI.

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