Search

JOÃO PINA 46750


Olho por olho

É bem evidente

Que é dente por dente.

Viviane Salles

(excerto de poema

publicado em 46750)

Há livros de fotografia que não saem do olhar, não saem da memória. E há fotografias (em livros) que confirmam a célebre lição de Robert Capa: "If your pictures aren't good enough, you aren't close enough." 46750, o mais recente livro de João Pina, fotojornalista nascido em Lisboa, em 1980, é a fusão das frases anteriores.

Depois de Por Teu Livre Pensamento - Histórias de 25 Ex-Presos Políticos Portugueses (Assírio & Alvim, 2007) e Condor (Edições tinta-da-china, 2014) surgiu em Maio passado 46750 (Edições tinta-da-china, 2018). '46750 é o número de homicídios que ocorreram na região metropolitana do Rio de Janeiro entre 2007 e 2016', explica o autor no posfácio do livro. Registe-se que parte das imagens publicadas tinham sido já premiadas em 2017, quando João Pina ganhou o Prémio Estação Imagem desse ano, com Rio de Janeiro - o custo humano dos grandes eventos desportivos.

Há uma diferença substancial entre os dois primeiros livros e o mais recente. É verdade que a violência é um denominador comum e sempre presente, mas antes de 46750 João Pina trabalhava sobre violência pretérita, a partir de arquivos e memórias. Neste novo livro o objecto de estudo é a violência despudorada e actual na grande cidade carioca.

Por Teu Livre Pensamento - Histórias de 25 Ex-Presos Políticos Portugueses é um livro de histórias de vivos, que sofreram, é certo, mas sobreviveram e assim continuam para contar as suas memórias. Não há, em todo o livro, nenhuma imagem de evidente violência. Condor, por sua vez, tem algumas imagens de violência explícita, mas são imagens de arquivo. A violência surge também nos depoimentos dos entrevistados, que novamente são antigos presos políticos. Uma vez mais histórias e memórias de vivos que sofreram e sobreviveram e foram entrevistados por João Pina. Mas o fotógrafo não estava no local do crime, no momento do crime...

Tudo muda com 46750. Violência em tempo real, sangue ainda quente, lágrimas por secar. E tudo entra pelos nossos olhos adentro dada a desconfortável proximidade do autor quando fotografa. Não há uma sensata distância de segurança! A angústia dos vivos vibra e as imagens que não têm violência flagrante transmitem o 'vazio' de uma vida vivida dia a dia porque o dia de amanhã é imprevisível. João Pina está no local do crime, no momento do crime, e fotografa como um foto-repórter de excelência que regista 'sem qualquer censura' o foco da ocorrência. O preto e branco contrastado da edição intensifica o dramatismo das imagens e das realidades que descobrem. O desenho gráfico e a paginação, especialmente a das páginas dobradas ao meio e que quando se abrem deixam ver as imagens mais chocantes, são o toque final na intensidade dramática permanente.

E tudo resulta para um livro 'de tirar a respiração', horrível, de guerra urbana, pobreza e desnorteio sócio-económico. Um livro 'pesado', que deprime o foto-leitor. Chocado com a morte, chocado com o sofrimento de quem vê os mortos passar. Das mulheres e das crianças... Até nos momentos de lazer e divertimento há tensão. Parece ser sempre necessário desfrutar depressa, freneticamente, porque tudo pode mudar de um instante para o outro. Talvez seja este o verdadeiro espírito do actual carnaval carioca!

Com 46750 João Pina mostra-nos a sua faceta de fotógrafo de guerra, sem medo do imprevisível. Muito distinto do fotógrafo documental que mergulhou longamente nos arquivos e procurou serenamente os seus entrevistados. Publica agora um livro superior, definitivamente fascinante, memorável e indispensável.

Entrevista de João Pina à Visão AQUI.

#JoãoPina #Brasil #RiodeJaneiro #RobertCapa #EstaçãoImagem

30 views
BLOG | Nuno de Santos Loureiro