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  • Writer's pictureNuno de Santos Loureiro

Fuzeta 1970 e 2022

Updated: Feb 28

A fotografia aérea oblíqua pode proporcionar uma visão única, 'em olho de ave', sobre o território e a paisagem. A fotografia repetitiva, ou melhor, a série fotográfica constituída por fotografias feitas com o mesmo enquadramento em datas distintas, é uma ferramenta fundamental para o estudo da biografia do território e da paisagem, e para aprofundar o conhecimento objectivo sobre questões como a das mudanças no uso e ocupação do solo.


O exercício que aqui se apresenta exemplifica o que acima foi afirmado. Escolheu-se um bilhete-postal do início dos anos de 1970, ilustrado com uma fotografia aérea oblíqua feita sobre a Fuzeta pelos Estúdios Tavares da Fonseca, e em 2022 fez-se com um drone uma fotografia com enquadramento semelhante, depois ajustado e sobreposto rigorosamente através do QGIS. Em seguida foi feita uma interpretação da paisagem observada, com base num catálogo de nove classes, inspirado no CORINE Land Cover.


A imagem abaixo apresenta, na coluna da direita, o território e a paisagem no início dos anos de 1970; na coluna da esquerda, o mesmo território cinco décadas mais tarde, no ano de 2022. Na linha superior estão as fotografias aéreas oblíquas; na linha do meio as respectivas interpretações das paisagens observadas em 'olho de pássaro'; na linha inferior as sobreposições das imagens originais com as suas interpretações.


FUZETA - no início da década de 1970 (coluna da esquerda) e no ano de 2022 (coluna da direita)

Algumas métricas elementares do território e da paisagem estão sintetizadas na tabela abaixo. Na primeira coluna estão assinaladas as nove classes referidas, no conjunto seguinte de colunas as percentagens respectivas, depois os números de polígonos para as duas datas e, por último os perímetros dos polígonos de áreas médias. As linhas destacadas com fundo amarelo são aquelas em que as transformações foram mais acentuadas (diferença superior a 10%).



É possível constatar que a construção, e em particular a construção dispersa, foi um driver determinante da transformação que ocorreu entre as duas datas. A expressão das casas na paisagem visível aumentou de 24,2% para 35,8%, o seu número aumentou de 23 para 666 polígonos visíveis, e quase todos esses novos polígonos estão localizados na parte interior do território estudado. As áreas dedicadas à agricultura decresceram de forma apreciável, tendência que se observou igualmente na faixa costeira húmida. Em sentido contrário constatou-se um acréscimo considerável nos espaços abertos, com pouca ou sem vegetação. Para tal contribuem as novas áreas de lazer nas proximidades da Ria Formosa e também algumas áreas interiores, nomeadamente as envolventes das salinas.


Este exemplo simples, mas rico em informação qualitativa e quantitativa, procura evidenciar a importância da fotografia aérea oblíqua e dos drones em estudos de geografia humana e biografia da paisagem. A fotografia repetitiva permite olhar para o passado com um 'olho actual' e, como em qualquer abordagem documental, proporciona uma análise, uma avaliação e um julgamento com base em critérios e valores que não são necessariamente absolutos e universais. Quando a fotografia é, simultaneamente, repetitiva e aérea oblíqua, o observador está numa posição exterior, a qual lhe assegura, em teoria, maior isenção. Mas, claro está, como já escreveu A. C. Godfrey, a photograph is not a place, and photographs are not visual copies of the places. Consequentemente, a fotografia aérea oblíqua e repetitiva proporciona narrativas baseadas em imagens de distintos passados, construídas com as perspectivas dos tempos presentes...

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