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  • Nuno de Santos Loureiro

a sardinha alarmada


Saía eu ontem do mar, da traineira Arrifana. Entrei no carro e liguei o rádio. Caiu com estrondo nos meus ouvidos uma das manchetes principais da manhã: o Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES), um organismo consultivo da Comissão Europeia (CE), recomendara no dia anterior a suspensão total, durante 15 anos, da pesca da sardinha em Portugal. De acordo com a mesma entidade, e ninguém o parece contestar, verifica-se desde 2006 um decréscimo acentuado nos stocks da espécie, nas águas ibéricas.

Duas traineiras (Portugal Quinto e Amuras) a pescar, ao largo de Portimão, na madrugada de ontem (20 de Julho de 2017).

- fotografia feita a bordo da traineira Arrifana -

Na verdade nada sei sobre gestão de stocks de peixe. Sei apenas que a sardinha faz parte da cultura portuguesa, e que esta não se limita à tradição, ao prato, aos postos de trabalho directos e indirectos resultantes desta actividade.

A escassez dos stocks de sardinha nas águas algarvias, neste ano de 2017, tem sido muito percepcionada e é tema habitual de conversa a bordo. Todos faltam da falta de peixe e tentam encontrar explicações. O aquecimento global, que afecta também a temperatura da água do mar, as correntes e a produção de plâncton (o alimento da sardinha), lado a lado com a poluição e as diversas artes de pesca com impactes muito negativos na biodiversidade marinha, estão sempre presentes na lista de causas que não podem ser ignoradas. É interessante ouvir como todos estes homens do mar estão atentos a realidades complexas e têm uma percepção integrada da realidade actual. E é também expectável imaginar o alarme e descrédito deles perante uma proposta da natureza daquela ontem formulada pelo ICES, que como garantido teria o fim de um sector particular e como eventual traria a recuperação de uma espécie carismática para todos os portugueses.

Perturba ouvir a CE dar espaço a estas sugestões quase maniqueístas sobre um problema muitíssimo complexo. A gestão humana do Planeta, do qual fazem parte os recursos do mar, está a conduzir-nos a todos, globalmente, para um fim confrangedor. Mudar a trajectória não passa, obviamente, pela cosmética de uma proibição pontual aqui e ali. É necessária a adopção de comportamentos correctos, sustentáveis, e, simultaneamente, transversais e integrados. No mar, na gestão de stocks de peixe capturado, por certo há muito para fazer, urgentemente. Seja na avaliação das quantidades que poderão ser pescadas, seja nas artes de pesca que poderão ser utilizadas, desde os pequenos covos e alcatruzes de plástico até às grandes artes de arrasto. E não há hoje muitas dúvidas de que, quando se quiserem encontrar soluções eficazes, todas as artes de pesca admissíveis terão de ter impactes e consequências mínimas em toda a biodiversidade marinha, ao contrário de que vai hoje acontecendo. Preservar os oceanos também é impedir que os mesmos sejam depósito de todo o tipo de lixos. Preservar stocks de peixe também é impedir que se utilizem levianamente artes de pesca que para capturar um peixe ou um polvo deixam sistematicamente um rastro de destruição à sua volta...

Pesca de sardinha a bordo da traineira Arrifana, ao largo de Portimão, na madrugada de 6 de Junho de 2017.

- fotografia feita no âmbito da The Sardine Photo Experience -

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BLOG | Nuno de Santos Loureiro