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Barragem da Bravura: faltam água e planos para o futuro

A Barragem da Bravura, a única existente na Bacia Hidrográfica das Ribeiras do Algarve, é uma infra-estrutura do final da década de 1950 (inaugurada em 1958), e foi naqueles tempos pensada para alimentar o Perímetro de Rega do Alvor. Mas hoje, com uma agricultura pouco dinâmica, a água da albufeira é vendida a quatro grandes grupos de clientes. As Águas do Algarve consomem cerca de 65% das reservas, enquanto que os campos de golfe, nomeadamente Penina, Palmares e Morgado do Reguengo, consomem um pouco mais do que 15%. A agricultura consome um pouco menos. O quarto cliente da Associação de Regantes e Beneficiários do Alvor (ARBA), a entidade responsável pela gestão e manutenção quer da barragem quer da rede de infra-estruturas de distribuição de água, é a EDP, já que quando a descarga é feita com um caudal significativo há ainda a oportunidade para activar uma infra-estrutura destinada à produção de energia eléctrica.


Barragem da Bravura, no dia 10 de Setembro de 2020.


Neste final de Verão de 2020 as reservas da albufeira da Bravura estão quase esgotadas. Há muitos anos que não se via uma situação como a actual e, na verdade, é necessário retroceder até 1995 para encontrar algo pior. Os anos de 1982, 83 e 84 também foram muito difíceis, mas, por exemplo, a seca de 2005 não foi severa a ponto de levar a albufeira a um estado como o actual.



Hélder Henriques, o Presidente da Direcção da ARBA, explicou que o principal responsável é a falta de chuva e afirmou recentemente que os consumos de água não têm vindo a aumentar. O decréscimo da precipitação é um facto inegável. Basta analisar os valores da Estação Meteorológica de Portimão, pertença da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, já que as duas estações existentes na Bravura, da responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), não têm dados actuais disponíveis. Os valores da E.M. Portimão evidenciam bem que na primeira metade da série estudada (anos hidrológicos de 2006-2007 a 2019-2020) os valores totais anuais de precipitação estavam quase sempre acima da média, enquanto que na segunda metade passaram a estar quase sempre abaixo da média.



Quanto aos volumes totais de água fornecida por época de rega, entre 2006 e 2019, segundo informações fornecidas pela ARBA, nos mais recentes anos verificou-se uma redução generalizada, embora com uma tendência de crescimento desde 2014. E essa tendência, de sentido contrário ao da precipitação total anual, estará a contribuir para que a albufeira, no final de cada Verão, tenha o seu nível um pouco mais abaixo do que tinha em data comparável do ano anterior.



Para os aumentos de consumo de água entre 2014 e 2019 terão contribuído os aumentos de áreas regadas com pomares (143 para 192 ha), hortícolas (64 para 121 ha), vinha (37 para 78 ha), bem como o fornecimento de água para os golfes (207 para 275 ha). No mesmo intervalo de tempo, a área total regada a partir da Barragem da Bravura passou de 572 para 773 ha. A área total do Perímetro de Rega do Alvor é, no entanto, muito maior, superior a 1700 ha, número que evidencia um acentuado sub-aproveitamento agrícola das infra-estruturas construídas no tempo do Estado Novo.


As necessidades de água para o abastecimento público vieram a beneficiar desse sub-aproveitamento, mas por estranho que possa parecer a captação é feita na ETA das Fontaínhas, já próximo de Portimão, no final de uma longa conduta a céu aberto, onde se verificam permanentemente perdas de água por evaporação e em fugas sempre existentes neste tipo de obras de arte.


A Barragem da Bravura e o Perímetro de Rega do Alvor parecem estar, neste momento, a necessitar de uma reflexão sobre o futuro. Os consumos globais de água no Algarve têm vindo a aumentar progressivamente, ao longo dos anos, e as disponibilidades regionais têm vindo a reduzir-se. Cada vez se gasta mais, cada vez a chuva fornece menos! No futuro próximo pretende-se continuar a gastar ainda mais, na agricultura e provavelmente no consumo público, mas os cenários climáticos consolidados apontam para que a redução da precipitação se vá continuar a fazer sentir. Neste contexto de crise hidrológica estrutural, infra-estruturas como a Barragem da Bravura necessitam imperiosamente de se ajustar aos tempos presentes e futuros, para assegurar a melhor gestão de um bem que cada vez é mais escasso e precioso!


Condutor principal de água do Perímetro de Rega da Bravura.


OS AVISOS DO IPMA


Ao longo do ano de 2020 o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) foi emitindo um conjunto de notícias sobre o evoluir do estado do tempo em Portugal. A 29 de Maio, por exemplo, os especialistas do IPMA informavam que a segunda quinzena de maio (...) tem sido caracterizada por valores altos da temperatura máxima do ar, muito superiores aos valores normais para este mês. O país atravessou uma onda de calor que se estendeu por vários dias e em Castro Marim, no dia 23, atingiram-se os 36,1ºC. A 19 de Junho, numa notícia sobre “Seca e Desertificação em Portugal continental”, os especialistas alertavam para o decréscimo progressivo da precipitação e informavam que se verifica um decréscimo dos valores anuais, cerca de -20 mm/década, tendo os últimos 20 anos sido particularmente pouco chuvosos em Portugal continental. Na mesma oportunidade alertava-se para que os cenários apontam para a diminuição da precipitação (...) no Sul, entre 15 a 30%.


No dia 4 de Julho o IPMA publicava uma nova notícia, então dedicada a um Junho muito seco, e escrevia o mês de Junho classificou-se como muito seco, com um valor médio da quantidade de precipitação muito inferior ao normal, apenas 27 % do valor médio. (...) Verificou-se uma diminuição significativa dos valores (...) de água no solo (...) e um aumento da área em seca meteorológica. A 7 de Agosto os especialistas informavam que julho de 2020 foi o mais quente dos últimos 90 anos (desde 1931), e que o valor médio da temperatura média do ar, 25.08°C, foi muito superior ao normal, +2.91°C.


Por fim, no passado dia 4 de Setembro surgiu nova notícia, intitulada “Agosto quente e verão muito quente”, ficando-se a saber que 2020 foi o 13º verão mais quente dos últimos 90 anos, com um valor médio da temperatura do ar de 22.42 °C (+1.17 °C em relação ao valor normal), e que se verifica que 9 dos 15 verões mais quentes ocorreram depois do ano 2000, sendo 2005 o mais quente (23.43 °C).

BLOG | Nuno de Santos Loureiro