Search

Barragens do Sotavento Algarvio a caminho de mínimos históricos


Barragem de Odeleite, 3 de Setembro de 2020


Foram já oficialmente divulgados os novos níveis de água armazenada nas albufeiras de Odeleite e do Beliche, as duas barragens algarvias integradas na Bacia Hidrográfica do Guadiana. No final de Agosto, na Barragem de Odeleite a água estava na cota 34,91 metros e na do Beliche na cota 34,83 metros. As duas barragens, como se sabe, estão interligadas e, em conjunto, são o principal garante da existência de água para o abastecimento público de todo o Sotavento Algarvio.


Os números acima referidos, 34,91 e 34,83 metros, são importantes porque permitem conhecer o estado actual das disponibilidades de água e também porque permitem estabelecer expectativas para os próximos meses. Uma análise dos históricos das duas barragens revela que os meses de Novembro ou Dezembro são, salvo raras excepções, os primeiros meses de recarga, ou seja, quando o volume de água proveniente da precipitação e do escoamento superficial das ribeiras que abastecem as albufeiras é superior ao volume de água gasto pelo consumo doméstico, pela agricultura e pela evaporação. Quando se observam os históricos da última década (2010-2019) constata-se que, para as duas albufeiras, na primeira metade predominava Novembro como primeiro mês de recarga, enquanto que na segunda metade da década era Dezembro o primeiro mês de recarga.


Quer isto dizer que até ao final de Novembro de 2020 se deve admitir como cenário muito provável que os armazenamentos nas duas barragens continuem a baixar, atingindo não só níveis mínimos históricos mas também registos muito preocupantes. Os dois valores agora observados são os mais baixos da série 2010-2019 e é necessário retroceder a Agosto de 2005 para encontrar registos inferiores, de 32,75 metros em Odeleite e 32,70 metros no Beliche.


Com os valores observados no final de Agosto de 2020 e com a série 2010-2019 é possível avançar com algumas projecções até ao final de Novembro próximo. Para tal, a série foi estudada estabelecendo-se previamente quatro modelos distintos para a previsão: i. a média dos últimos dez anos (2010-2019): ii. a média dos últimos cinco anos (2015-2019); iii. a média dos últimos três anos (2017-2019); iv. apenas o ano de 2019.


O gráfico ilustra os quatro padrões de variação da água na Barragem de Odeleite ao longo do ano, para os quatro modelos já referidos. Apresenta também os valores relativos ao ano de 2020. Na Barragem do Beliche os padrões são muito semelhantes.


Os resultados são esclarecedores:

  1. com a média dos últimos dez anos será Novembro o primeiro mês de recarga; no final de Outubro a Barragem de Odeleite terá água à cota de 33,22 metros, ou seja ainda vai baixar 1,69 metros; na do Beliche os valores serão, respectivamente, de 33,13 e 1,70 metros;

  2. com a média dos últimos cinco anos será Dezembro o primeiro mês de recarga; no final de Novembro, em Odeleite a água estará à cota de 32,67 metros, ou seja ainda vai baixar 2,24 metros; no Beliche os valores serão, respectivamente, de 32,61 e 2,22 metros;

  3. com a média dos últimos três anos será novamente Dezembro o primeiro mês de recarga; no final de Novembro, em Odeleite a água estará à cota de 32,32 metros, ou seja ainda vai baixar 2,59 metros; no Beliche os valores serão, respectivamente, de 32,27 e 2,56 metros;

  4. por último, apenas o ano de 2019 continuará a ser Dezembro o primeiro mês de recarga; no final de Novembro, em Odeleite a água estará à cota de 31,33 metros, ou seja ainda vai baixar 3,58 metros; no Beliche os valores serão, respectivamente, de 32,25 e 3,58 metros.


O gráfico ilustra as quatro projecções para o decréscimo das reservas de água na Barragem de Odeleite entre finais de Agosto e Novembro de 2020, para os quatro modelos já referidos. Na Barragem do Beliche os padrões são muito semelhantes.


Como os níveis mínimos de exploração são, respectivamente, de 22 metros em Odeleite e 15 metros no Beliche, pode-se concluir que em Odeleite se estará nessa data entre 9 e 11 metros acima do mínimo, e no Beliche entre 17 e 18 metros acima do mínimo. Adoptando uma linguagem popular, é então possível afirmar-se que nos últimos meses de 2020 as reservas de água estarão quase a chegar ao fim.


Adicionalmente, os mesmos cálculos permitem chegar a outra conclusão: quanto mais curto é o período considerado (dez, cinco, três ou apenas um ano) e mais próximo se posiciona do presente, mais baixo é o nível da água armazenada no final do período de decréscimo de armazenamento. Em Odeleite, com dez anos a água estará à cota 33,22 metros, mas com apenas um ano estará à cota 31,33 metros; no Beliche os números são, respectivamente, de 33,13 e 32,25 metros. Estas diferenças tanto poderiam resultar de um incremento progressivo de consumos, como de valores de evaporação cada vez mais elevados, como ainda de ocorrência de precipitação nos meses de Setembro a Novembro cada vez mais diminutas.


Barragem do Beliche, 3 de Setembro de 2020



A Estação Meteorológica da Junqueira, Castro Marim, pertença da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, disponibiliza registos diários de temperatura média do ar, evapotranspiração potencial (ETo) e precipitação. Ao longo do período entre 2010 e 2019 as alterações verificadas nos dois primeiros parâmetros meteorológicos foram mínimas, ao contrário do que se identificou para a precipitação, onde o decréscimo foi acentuado.



O gráfico acima ilustra essa realidade: a azul escuro está a precipitação acumulada nos meses de Setembro, Outubro e Novembro e a azul claro a acumulada em Setembro e Outubro; as duas rectas são as respectivas linhas de tendência (regressão linear). Assim, no período estudado (2010 a 2019) pode-se concluir que a quantidade de precipitação caída no Outono foi reduzida para cerca de metade, facto que certamente contribuirá, de forma decisiva, quer para o cada vez mais tardio início do re-enchimento das albufeiras, quer para os valores cada vez mais baixos dos armazenamentos de água nos finais de Outubro e Novembro. Consequentemente, é possível afirmar com elevado grau de certeza que as alterações observadas no regime da precipitação outonal estão a influenciar de forma marcante as disponibilidades de água armazenadas nas Barragens de Odeleite e do Beliche.


Para a mesma estação meteorológica automática, também a precipitação total anual (ano civil) ao longo do período estudado apresenta um decréscimo digno de registo, facto que contribuirá para assinalar uma das causas que certamente explicará a progressiva redução interanual das reservas de água existentes nas duas albufeiras.


Texto editado e publicado no jornal Barlavento.

BLOG | Nuno de Santos Loureiro